

PORTO ALEGRE
Paróquia Nossa Senhora da Conceição
30 MAI | 18h30
Com obras de: VIVALDI, WILHELM FRIEDEMANN BACH e JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA.
Endereço: Avenida Independência, 230 — Centro Histórico — Porto Alegre | RS
Ensemble Bach Brasil
(com instrumentos de época)

Fernando Cordella
Direção Musical,
Cravo e Órgão


Marília Vargas
Soprano

Giovani dos Santos
Violino I (Spalla)
Vinícius Nogueira
Violino II

João Senna
Viola

Pablo Schinke
Violoncelo

Ezequiel de Paula
Violone

Sofia Inda
Palestrante,
Pesquisadora e Historiadora da Arte

Programa
ANTONIO VIVALDI (1678–1741)
Moteto "Nulla in mundo pax sincera", RV 630
— Aria: Nulla in mundo pax sincera
— Recitativo: Blando colore
— Aria: Spirat anguis
— Aria: Alleluia
Concerto per Archi em Sol menor, RV 157
— Allegro
— Largo
— Allegro
"Amatae face et anguibus" (Juditha Triumphans, RV 644)
WILHELM FRIEDEMANN BACH (1710–1784)
Sinfonia em Fá Maior "Dissonant"
— Vivace / Allegro
— Andante
— Allegro
— Menuetto I & II
JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA (1767–1830)
Sinfonia para Cordas em Ré Maior/menor (extraída do Método para Pianoforte)
Moteto "Te Christe solum novimus"
— Te Christe solum novimus
— Decantabo in aeternum
— Aleluia

Nota de Programa
Localizada na Avenida Independência, defronte à Praça Dom Sebastião, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição é uma das mais antigas igrejas de Porto Alegre e a que melhor preserva seu aspecto primitivo. Iniciada em 1851 e concluída somente em 1890 — fruto de quatro décadas de obras paulatinas e de uma irmandade que enfrentou recorrentes crises financeiras —, segue os padrões do barroco colonial tardio influenciado pela arquitetura chã: fachada sóbria, simétrica, ladeada por duas torres quadradas com coruchéus bulbosos, reservando toda a ornamentação para o interior. No espaço interno, a influência neoclássica convive com a tradição da talha luso-brasileira, em altares laterais e tribunas profusamente entalhadas e douradas. É um bem tombado pela Prefeitura de Porto Alegre.
Neste espaço marcado por uma simplicidade exterior austera e por um interior de rica e contida ornamentação, apresentamos o concerto de encerramento da etapa gaúcha da 4ª edição do Festival Interativo de Música e Arquitetura. O Ensemble Bach Brasil, em formação de cordas com instrumentos de época, sob a direção musical de Fernando Cordella ao cravo e ao órgão, recebe a voz da soprano Marília Vargas em um programa que conduz o ouvinte por três momentos sucessivos: o barroco veneziano de Vivaldi, a transição estilística galante de Wilhelm Friedemann Bach e o classicismo luso-brasileiro de José Maurício Nunes Garcia. Os comentários ficam a cargo da arquiteta e pesquisadora Sofia Inda — que, em sua pesquisa de mestrado pela UFRGS, dedicou-se justamente ao mestre-de-obras e entalhador João do Couto e Silva, responsável pelo projeto e execução da decoração interna desta igreja.
Abrimos o concerto com o moteto "Nulla in mundo pax sincera", RV 630, de Antonio Vivaldi, escrito por volta de 1735 para soprano e cordas. A peça parece desenhar, em música, a longa e atribulada construção desta igreja: a doação do terreno em 1847, o lançamento da pedra fundamental em 1851, a paralisação das obras por falta de verbas, as sucessivas crises da irmandade e, finalmente, a conclusão em 1890. A leveza luminosa da escrita vivaldiana, com seus arpejos de cordas e a voz que se eleva sobre o acompanhamento, encontra eco nos panejamentos movimentados e nas pinturas a ouro da imagem da Padroeira — bela produção da arte escultórica portuguesa do século XVIII — que coroa o altar-mor abrigada em um nicho com baldaquino.
Em seguida, o Concerto per Archi em Sol menor, RV 157, oferece em três movimentos — Allegro, Largo, Allegro — o vigor do estilo veneziano nas cordas. A música conversa diretamente com um detalhe que a maioria dos visitantes não percebe ao entrar na nave: acima das janelas frontais do coro, sobre a porta principal, corre um grande friso entalhado em madeira com volutas, elementos fitomorfos e instrumentos musicais — testemunho de que esta igreja foi pensada, desde sua decoração interna, como espaço de música. Encerramos esse primeiro bloco vivaldiano com a ária "Amatae face et anguibus", da serenata sacra "Juditha Triumphans", RV 644, escrita por Vivaldi para o Ospedale della Pietà, em Veneza, em 1716 — uma ária dramática que evoca o universo da iconografia mariana e dos retábulos laterais.
A Sinfonia em Fá Maior "Dissonant" de Wilhelm Friedemann Bach (1710–1784) marca uma passagem. Filho mais velho de Johann Sebastian, formado na disciplina contrapontística paterna, Wilhelm Friedemann compõe nesta sinfonia uma obra de transição entre o estilo barroco e o estilo classicista, com momentos de surpreendente experimentalismo harmônico. Esta passagem estilística — do contraponto barroco ao discurso classicista — encontra correspondência na própria arquitetura desta igreja: barroco colonial tardio por fora, com a sobriedade da arquitetura chã, e neoclássico por dentro, nos elementos que ordenam a decoração das tribunas, do coro e da capela-mor. O templo, como a sinfonia, é uma obra de transição.
Chegamos então a José Maurício Nunes Garcia (1767–1830), padre carioca, organista e compositor, principal nome da música sacra brasileira no limiar entre o período colonial e o império. Da sua Sinfonia para Cordas em Ré Maior/menor — extraída do "Método para Pianoforte" — escutamos uma página sintética e elegante, em que o classicismo é assimilado e devolvido em sotaque luso-brasileiro. Em seguida, o moteto "Te Christe solum novimus", em três movimentos — "Te Christe solum novimus", "Decantabo in aeternum" e "Aleluia" —, declara, em texto e em música, o caráter cristocêntrico da liturgia. Sob o arco pleno ricamente entalhado da capela-mor, diante da imagem da Padroeira e dos seis altares laterais devotados ao Sagrado Coração de Jesus, a São Manuel, a São Joaquim, a Nossa Senhora da Glória, a São Francisco de Paula e a Santo Expedito, o aleluia final ressoa em um espaço que, segundo o historiador Moacyr Flores, é "um lugar de memória repleto de reminiscências, que permite estabelecer uma ponte temporal ligando a espiritualidade do presente com a espiritualidade do passado".
Encerramos a 4ª edição do FIMA no Rio Grande do Sul exatamente neste lugar: um templo onde, em uma cidade que se modernizou e cresceu vertiginosamente, a memória da fé colonial portuguesa permanece intacta sob a forma de talhas douradas, frisos com instrumentos musicais e a discreta assinatura entalhada do mestre João do Couto e Silva sob o coro. A música, ao soar entre estas paredes, devolve a este espaço a dimensão sonora para a qual ele foi também concebido.
Fernando Cordella
Direção Musical, Cravo e Órgão
Considerado um dos cravistas mais ativos de sua geração na América Latina, Fernando Cordella é diretor artístico da Sociedade Bach Brasil e vencedor do Prêmio Açorianos 2011 como melhor intérprete de música erudita. Teve Nicolau de Figueiredo como seu principal mestre no cravo e tem atuado como solista e maestro convidado nas principais orquestras do Brasil e do exterior. Desde 2016 é professor de cravo na Escola Municipal de Música de São Paulo.
Marília Vargas
Soprano
Reconhecida soprano, Marília Vargas atua regularmente em palcos da Europa, Ásia e Américas. Colaborou com grupos como La Capella Reial de Catalunya e a OSESP, apresentando-se em salas como o Wiener Konzerthaus e o Gran Teatre del Liceu de Barcelona. Formada em Canto Barroco pela Schola Cantorum Basiliensis e em Lied pelo Conservatório de Zurique, é também uma respeitada pedagoga em festivais internacionais.
Giovani dos Santos
Violino I (Spalla)
Spalla e solista da Bach Society Brasil e da Orquestra Sinfônica de Carazinho, Giovani dos Santos integra também as orquestras da ULBRA e a Sinfônica de Porto Alegre. Especialista em violino barroco, colabora desde 2016 em performances historicamente informadas ao lado de nomes como Ricardo Kanji e Fernando Cordella. É bacharel pela UFRGS e aperfeiçoou-se com Michael Gehlmann e Emmanuele Baldini.
Vinícius Nogueira
Violino II
Nascido em Bagé, iniciou seus estudos no Instituto Municipal de Belas Artes (IMBA). Em Porto Alegre, estudou no Conservatório Pablo Komlós (OSPA) e é bacharel em violino barroco pela Hochschule für Künste, em Bremen, na Alemanha.
João Senna
Viola
Violista integrante da OSPA e da Bach Society Brasil, João Senna formou-se na UNIRIO e na Academia da OSESP. Fundador dos quartetos Atlântico e Motirõ, atua também na música contemporânea junto ao grupo de Jocy de Oliveira. Com passagens por orquestras como a OSB e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, colabora frequentemente em festivais e projetos de música de câmara no Brasil.
Pablo Schinke
Violoncelo
Violoncelista formado na França, Pablo Schinke especializou-se em violoncelo barroco e em improvisação de jazz. Fundador do Trio in Uno, realizou turnês internacionais e colaborou com artistas como Yamandu Costa. Vencedor do concurso da OSPA em 2022, atua hoje em Porto Alegre como instrumentista e produtor musical, sendo convidado frequente de grupos como o Bach Brasil e a Orquestra da ULBRA.
Ezequiel de Paula
Violone
Contrabaixista, compositor e educador, bacharel em Música pela UFRGS, Ezequiel de Paula atuou junto à OSPA, à Orquestra Filarmônica de Blumenau e à Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, e participou de festivais como SESC, Gramado in Concert e Young Euro Classic. Atua na formação de jovens em projetos orquestrais no Rio Grande do Sul.
Sofia Inda
Palestrante | Arquiteta e pesquisadora de patrimônio
Arquiteta e pesquisadora especializada em patrimônio sacro do Rio Grande do Sul, Sofia Inda é autora de pesquisas sobre o entalhador português João do Couto e Silva e sobre o patrimônio arquitetônico do Delta do Jacuí. Coordenadora Acadêmica do FIMA, conduz, durante os concertos, os comentários intercalados ao repertório musical, em diálogo com a arquitetura, a arte decorativa e a história das edificações visitadas pelo festival.

Paróquia Nossa Senhora da Conceição — Porto Alegre
A Paróquia Nossa Senhora da Conceição é um templo da Igreja Católica localizado na Avenida Independência, defronte à Praça Dom Sebastião, em Porto Alegre. É uma das mais antigas igrejas da cidade e a que melhor conserva seu aspecto primitivo, com rica decoração interna em talha dourada e estatuária. É bem tombado pela Prefeitura Municipal e integra, desde 1977, o Inventário dos Bens Imóveis de Valor Histórico e Cultural da capital gaúcha.
A devoção a Nossa Senhora da Conceição, no Brasil, remonta à restauração da soberania lusa em Portugal, em 1646, quando Dom João IV declarou-a Rainha e Padroeira do Reino e determinou que a Virgem, sob esta denominação, fosse cultuada em templos e capelas de toda a metrópole e das colônias. No Rio Grande do Sul, a primeira igreja dedicada à padroeira foi erguida em Viamão, em 1741, e, em Porto Alegre, a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição existe desde 1790, sendo uma das mais antigas da cidade — formada, em sua origem, por brancos e mulatos, com Compromisso confirmado pelo governo lisboeta em 1792.
Inicialmente abrigada na Matriz, a Irmandade recebeu, em 1847, a doação de um terreno na Estrada de Cima — atual Avenida Independência — feita por Rafaela Pinto Bandeira, filha do brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, protetor da Irmandade. A pedra fundamental foi lançada em 8 de dezembro de 1851, mas a sucessão de crises financeiras levou a obras paralisadas, retomadas em 1856, parcialmente concluídas em 1858 e definitivamente finalizadas somente em 1890, quase quatro décadas após o início. A autoria do projeto não é conhecida com certeza; estudos recentes — entre eles a pesquisa de Sofia Inda — discutem hipóteses que vão de Luís Manoel Martins da Silva, da Comissão de Obras da Província, a José Pereira Maria do Campo, autor do projeto da Matriz de Canguçu. O mestre-de-obras foi João do Couto e Silva, entalhador português, que também projetou e executou a decoração interna do templo e cuja assinatura entalhada se preserva debaixo do coro.
O estilo da igreja segue os padrões do barroco colonial tardio, com linhas simples e fachada sóbria — típica da arquitetura chã —, reservando as ornamentações para o interior, onde se observa também a influência do estilo neoclássico. Os alicerces são de pedra e barro, a estrutura é de alvenaria, e o enchimento é de pedras irregulares. A fachada apresenta um corpo central ladeado por duas torres de partido quadrado, com pilastras em destaque nas quinas, três níveis divididos por cornijas largas, aberturas em arco redondo para os sinos no nível superior e coruchéus bulbosos e pinhas nos cantos. O corpo central tem uma pequena escadaria de acesso às três grandes portas de arco redondo, fechadas por folhas de madeira ricamente entalhada com motivos florais e vitrais nos tímpanos; acima, três janelões envidraçados em arco, e no terceiro nível um frontão triangular perfurado por um óculo e coroado por uma cruz de ferro.
Internamente, a entrada é protegida por um para-vento entalhado e envidraçado, formando um vestíbulo. A nave tem as paredes despidas de ornatos, mas os seis altares laterais — devotados ao Sagrado Coração de Jesus, a São Manuel, a São Joaquim, a Nossa Senhora da Glória, a São Francisco de Paula e a Santo Expedito — e as tribunas ostentam profusa decoração em entalhes, douraduras e pintura marmorizada. Algumas das imagens, como a da Padroeira e a de São Joaquim, são de grande expressividade e riqueza plástica, com panejamentos movimentados e pintura a ouro. O teto, em abóbada de berço truncada, apresenta caixotões delicados, apenas sugeridos, e grandes medalhões de onde pendem lustres de cristal. O coro sobre a entrada principal é ricamente adornado com talhas douradas e gradis em ferro trabalhado, apoiado em colunas de madeira que delimitam três arcos abatidos; acima das janelas frontais corre um grande friso entalhado com volutas, elementos fitomorfos e instrumentos musicais — testemunho de que o canto e a música foram pensados, desde sua decoração, como parte integrante da vida deste espaço.
Tombada em 2007, a igreja passou, entre 2009 e 2011, pela primeira etapa de um projeto de restauro integral, com a recuperação da nave, da capela-mor, da casa paroquial e da fachada. Para o historiador Moacyr Flores, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, "com exterior singelo e simples e com impressionantes obras de talha em seu interior, constitui um lugar de memória repleto de reminiscências que permite estabelecer uma ponte temporal ligando a espiritualidade do presente com a espiritualidade do passado".


