

VIAMÃO
Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição
28 MAI | 20h
Com obras de: J. S. BACH, GLUCK, LOBO DE MESQUITA, MOZART e JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA.
Endereço: Praça Cônego Machado dos Santos, 53 — Centro — Viamão | RS
Ensemble Bach Brasil

Fernando Cordella
Direção Musical,
Cravo e Órgão

Cintia de los Santos
Soprano

Diana Danieli
Contralto

Rodrigo Bloch
Contratenor

Alexandre Kreismann
Tenor

Norbert Steidl
Baixo

Sofia Inda
Palestrante,
Pesquisadora e Historiadora da Arte

Programa
JOHANN SEBASTIAN BACH (1685–1750)
Moteto "Lobet den Herrn, alle Heiden", BWV 230
Dueto "So feiern wir das hohe Fest", BWV 4
CHRISTOPH WILLIBALD GLUCK (1714–1787)
Ária "Che farò senza Euridice", da ópera "Orfeo ed Euridice"
JOSÉ JOAQUIM EMERICO LOBO DE MESQUITA (1746–1805)
Tractus para o Sábado Santo "Sicut cervus"
WOLFGANG AMADEUS MOZART (1756–1791)
Abendempfindung, K. 523
Ridente la calma, K. 152
JOSÉ MAURÍCIO NUNES GARCIA (1767–1830)
Exercício em Ré (do Método para Pianoforte)
Judas Mercator Pessimus
WOLFGANG AMADEUS MOZART (1756–1791)
Ave Verum Corpus, K. 618

Nota de Programa
Erguida em sítio elevado, com a majestade de um templo e a envergadura de uma fortaleza, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Viamão é a segunda igreja mais antiga do Rio Grande do Sul, e a mais antiga paróquia da região da serra e do litoral central gaúcho ainda em pleno funcionamento. Sua história começa em 1741, com a licença para a construção de uma pequena capela dedicada à Virgem da Imaculada Conceição, e ganha novo capítulo em 1767, quando se firma o termo de obra do templo atual, consagrado em 1770, no contexto da chamada "corrida do Rio Grande", que fez de Viamão, por alguns anos, a capital da Capitania de São Pedro.
Neste cenário de adro com escadaria e balaustrada, planta retangular de nave única, capela-mor profunda, paredes lisas e caiadas, forro em arco abatido pintado de azul claro e sete retábulos ornados por uma talha de transição entre o barroco, o rococó e o neoclássico — datada do último quartel do século XVIII e dos primeiros anos do século XIX —, apresentamos um dos concertos da 4ª edição do Festival Interativo de Música e Arquitetura, que celebra o Brasil colonial. O Ensemble Bach Brasil, sob direção musical de Fernando Cordella ao cravo e ao órgão, reúne cinco vozes solistas em um repertório cuidadosamente selecionado para dialogar com a história das irmandades, com o decoro da arquitetura sacra colonial e com a arte da talha que ordena este espaço. Os comentários ficam a cargo da arquiteta e pesquisadora Sofia Inda.
Abrimos o concerto com o Moteto "Lobet den Herrn, alle Heiden", BWV 230, de Johann Sebastian Bach — "Louvai o Senhor, todas as nações". A escolha não é fortuita: este templo foi erguido pelas mãos e pelas devoções de múltiplos grupos — portugueses, açorianos, indígenas, africanos escravizados e seus descendentes —, e abrigou irmandades como a do Santíssimo Sacramento, a de Nossa Senhora da Conceição, a do Divino Espírito Santo e a do Rosário dos Pretos, esta última representada por um retábulo no lado esquerdo da nave. A polifonia bachiana, organizada em jubilosa simetria, encontra eco nas simetrias dos retábulos e na pluralidade de vozes que historicamente fizeram desta igreja seu lugar de reunião. Em seguida, o dueto "So feiern wir das hohe Fest", BWV 4, com seu caráter festivo e processional, conversa diretamente com o patrimônio imaterial da cidade — a Festa do Divino Espírito Santo, com suas bandeiras e cavalhadas, ainda hoje viva em Viamão.
A ária "Che farò senza Euridice", da ópera "Orfeo ed Euridice" de Christoph Willibald Gluck, nos transporta ao mito do amor que atravessa a morte. Aqui ela se oferece como espelho para a Capela do Senhor dos Passos, à esquerda da capela-mor, que guarda a antiga imagem articulada do Cristo a caminho do Calvário e a urna mortuária do Padre João Diniz. Lamento e esperança, ausência e presença, são os mesmos afetos que percorrem o teatro lírico do classicismo e a iconografia sacra colonial.
Atravessamos então o oceano para chegar ao Brasil colonial pela voz de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, compositor mineiro do final do século XVIII, contemporâneo da última fase de ornamentação desta matriz. Seu "Sicut cervus", Tractus para o Sábado Santo, traz a linguagem da escola mineira de música sacra — sóbria, austera, marcada pelo decoro do canto litúrgico — e ressoa na sobriedade luso-brasileira que rege a austeridade desta nave e a contenção de seu forro azul-celeste.
Em diálogo com a transição estilística que se observa nas talhas desta igreja — em que rocálias rococós convivem com colunas de fustes retos neoclássicos no retábulo-mor —, apresentamos duas obras de Wolfgang Amadeus Mozart: o lied "Abendempfindung", K. 523, e a canção "Ridente la calma", K. 152. Compostas no apogeu do classicismo vienense, elas conversam, na economia de meios e na elegância da linha melódica, com a passagem do gosto barroco-rococó para o ideal de equilíbrio e clareza do neoclassicismo, mesma travessia estilística inscrita na ornamentação interna deste templo.
Chegamos então a José Maurício Nunes Garcia (1767–1830), compositor carioca e principal nome da música sacra brasileira no limiar entre o período colonial e o império. Do "Método para Pianoforte" escutamos o "Exercício em Ré", oferecido aqui na sonoridade do cravo, e em seguida o "Judas Mercator Pessimus", responsório da Quinta-feira Santa que narra a traição de Judas. Nascido no mesmo ano em que se assinou o termo da construção desta matriz, Nunes Garcia é, em música, o que esta igreja é, em pedra e talha: a expressão de um Brasil colonial maduro, capaz de elaborar, em linguagem própria, os repertórios que herdou da tradição europeia.
Encerramos o concerto com o "Ave Verum Corpus", K. 618, de Mozart — uma das mais perfeitas e contidas peças do repertório sacro ocidental, escrita para a festa de Corpus Christi. Sua dedicação ao Santíssimo Sacramento devolve a este espaço, simbolicamente, a presença da Irmandade do Santíssimo Sacramento, que junto à Irmandade de Nossa Senhora da Conceição reuniu, em 1767, a comunidade para a construção desta matriz. Sob o arco-cruzeiro, diante do altar-mor, o silêncio que se segue à última nota é parte do concerto: é o silêncio sedimentado em três séculos de orações, festas e procissões que esta casa abriga.
Fernando Cordella
Direção Musical, Cravo e Órgão
Considerado um dos cravistas mais ativos de sua geração na América Latina, Fernando Cordella é diretor artístico da Sociedade Bach Brasil e vencedor do Prêmio Açorianos 2011 como melhor intérprete de música erudita. Teve Nicolau de Figueiredo como seu principal mestre no cravo e tem atuado como solista e maestro convidado nas principais orquestras do Brasil e do exterior. Desde 2016 é professor de cravo na Escola Municipal de Música de São Paulo.
Cintia de los Santos
Soprano
Intérprete solista brasileira com carreira internacional. Licenciada em Música, bacharela em Regência Coral pela UFRGS, pós-graduada em Voz Profissional e com um ano de Mestrado em Ópera pela Universidade de Hattiesburg/EUA, possui experiência como solista e docente vocal na França, Bélgica, China, Estados Unidos e Japão.
Diana Danieli
Contralto
Mezzo-soprano, apresentou-se como solista em importantes salas de concerto, incluindo a Sala Cecília Meireles (Rio de Janeiro), o Carnegie Hall (Nova York) e o Musikverein (Viena). Tem pós-graduações em Canto Lírico pela Mannes College (NY) e pelo Royal College of Music (Londres), e é bacharel pelo Boston Conservatory.
Rodrigo Bloch
Contratenor
Convidado do Ensemble Bach Brasil para a 4ª edição do FIMA, Rodrigo Bloch é regente coral, professor, cantor e produtor musical formado pela UFRGS. Atua na Aldeia da Fraternidade, na Comunidade Luterana Cristo e na IELB, coordenando projetos e concertos sacros. Como cantor, transita da música antiga à contemporânea, integrando grupos como o INComum Ensemble, o Núcleo de Música Antiga da UFRGS e a Bach Society Brasil, além de ter colaborado com o Coro Sinfônico da OSPA.
Alexandre Kreismann
Tenor
Tenor e regente coral, Alexandre Kreismann atua como solista em obras de Bach, Monteverdi e Schubert. Desde 2023, integra o Ensemble Bach Brasil sob a direção de Fernando Cordella. Com formação pela UFRGS, desenvolve também atividades como preparador vocal e arranjador, tendo colaborado com corais como o Porto Alegre Consort e o Coro da OSPA.
Norbert Steidl
Baixo
Baixo austríaco formado pelo Mozarteum de Salzburg, Norbert Steidl atuou no Festival de Salzburg sob a regência de Riccardo Muti. Com carreira internacional na Europa e na América Latina, interpretou papéis como Leporello e Papageno em diversos teatros. Seu repertório de concerto inclui os grandes oratórios de Bach, Handel e Brahms, apresentando-se regularmente como solista.
Sofia Inda
Palestrante | Arquiteta e pesquisadora de patrimônio
Arquiteta e pesquisadora especializada em patrimônio sacro do Rio Grande do Sul, Sofia Inda é autora de pesquisas sobre o entalhador português João do Couto e Silva e sobre o patrimônio arquitetônico do Delta do Jacuí. Coordenadora Acadêmica do FIMA, conduz, durante os concertos, os comentários intercalados ao repertório musical, em diálogo com a arquitetura, a arte decorativa e a história das edificações visitadas pelo festival.

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição — Viamão
Principal símbolo do patrimônio histórico e religioso da cidade, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Viamão é a segunda igreja mais antiga do Rio Grande do Sul e abriga a segunda paróquia fundada na antiga Capitania de São Pedro. Sua história começa em 1741, com a concessão de licença a Francisco de Carvalho da Cunha, proprietário da Estância Grande, para a construção de uma pequena capela dedicada à Imaculada Conceição. Consagrada em 1746 e elevada à condição de paróquia em 1747, ela deu origem ao núcleo urbano que se formou ao seu redor, com casas, ruas e cemitério organizados em torno do templo, atendendo a um vastíssimo território que ia do rio Mampituba ao rio Pardo.
Em 1763, com a invasão de Rio Grande pelas tropas castelhanas de Pedro de Ceballos, autoridades eclesiásticas, civis e militares transferiram-se às pressas para Viamão — episódio conhecido como "corrida do Rio Grande" —, tornando a vila, entre 1766 e 1773, a sede da Câmara Municipal e capital da Capitania de São Pedro. Diante da nova situação administrativa, em 1767 reuniram-se as irmandades do Santíssimo Sacramento e de Nossa Senhora da Conceição, o vigário José dos Reis Custódio, o governador José Custódio de Sá e Faria e o mestre carpinteiro Francisco da Costa Senne para firmar o termo de construção do novo templo, erguido ao lado da capela original e consagrado em 1770.
Tombada em 1938 pelo SPHAN — hoje IPHAN —, a igreja foi reconhecida tanto pelo seu valor histórico, como a segunda mais antiga do estado, quanto pelo seu valor arquitetônico. Assentada em sítio elevado e voltada para noroeste, foi descrita pelo historiador da arquitetura Riopardense de Macedo como uma matriz projetada com "a majestade de um templo e a envergadura de uma fortaleza". A entrada se dá por um amplo adro com escadaria e balaustrada, que organiza a passagem do espaço público da praça para o espaço sagrado do templo.
Internamente, apresenta planta retangular de nave única e capela-mor profunda, com forro em arco abatido constituído por ripas de madeira pintadas de azul claro, paredes lisas e caiadas e átrio com pia batismal em pedra à esquerda. A capela-mor é delimitada pelo arco-cruzeiro; à esquerda situa-se a Capela do Senhor dos Passos, onde se preserva uma antiga imagem articulada do Cristo a caminho do Calvário e a urna mortuária do Padre João Diniz; à direita, a antiga sacristia.
O programa decorativo é composto por sete retábulos: à esquerda, em direção à porta de entrada, os de Nossa Senhora do Rosário, do Divino Espírito Santo e de Sant'Ana; à direita, os de Nossa Senhora das Dores, São Miguel e Santa Bárbara, além do retábulo-mor. Cada um corresponde não apenas a uma devoção, mas também à presença de irmandades religiosas que organizaram, no período colonial e imperial, a vida religiosa e social da comunidade — entre elas a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, vinculada à população negra. A talha apresenta um repertório ornamental de transição estilística, com elementos barrocos e rococós "rocaillizados" em orelhas sinuosas, ao lado de traços neoclássicos como as colunas de fustes retos no retábulo da capela-mor. Estima-se que sua execução seja do último quartel do século XVIII e dos primeiros anos do século XIX.
Ao longo do século XX, a matriz passou por significativas intervenções: em 1928, reforma do telhado, substituição do coro e do assoalho, e introdução da balaustrada do adro; em 1930, pintura do forro, dos retábulos, das paredes e das capelas, realizada por Fernando Schlatter; em 1948, reforma da sacristia e da Capela do Senhor dos Passos; em 1954, construção do salão e da casa paroquial; entre 1980 e 1982, restauro do telhado e do forro; e, em 1999, ampla restauração que recuperou os retábulos e as imagens, restituindo à igreja a harmonia de seu conjunto. Patrimônio material e suporte de memória, a Matriz de Viamão condensa, em sua forma construída, valores, saberes e experiências históricas da comunidade, tornando indissociáveis templo e cidade.


