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Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência

Nas igrejas barrocas o divino se materializa por meio do ambiente persuasivo, teatral e carregado de dramaticidade. A opulência e retórica dos interiores, traduzidos pelas obras de talha e em seu douramento, na magnificência da imaginária e na eloquência da pintura em perspectiva ilusionista formaram um conjunto convincente, um cenário de poder e imaginação em prol da conquista do observador, da sua contrição e entrega à liturgia. 

É no Largo da Carioca, região central da cidade do Rio de Janeiro, junto ao Convento de Santo Antônio, que se encontra uma das maiores riquezas do universo Luso-Brasileiro não só no que tange ao aspecto religioso mas também na tradução de uma das mais belas e harmoniosas manifestações artísticas ao alcance de todos até os dias de hoje. Trata-se da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e seu conjunto ornamental, a expressão legítima do espírito contra-reformista. 

Composto por exuberante e minuciosa talha integralmente dourada, painéis parietais em madeira simulando o mesmo efeito obtido pelos embrechados de mármores policromos italianos do chão da capela-mor, rica imaginária portuguesa, mobiliário, finos paramentos e objetos de porcelana e ourivesaria, o interior do templo representa um conjunto coeso e coerente tanto no aspecto ideológico como estilístico e estético. Todos os ornamentos – talha, pintura e imaginária - partilham harmonicamente do mesmo propósito, além de contribuírem para a boa leitura e compreensão das mensagens de cunho espiritual. Nas coberturas abobadadas da capela-mor e da nave se encontram os grandes tesouros artísticos do período barroco desta cidade: as primeiras pinturas em perspectiva ilusionista da colônia, o Milagre da Porciúncula (1732) e a Glorificação de São Francisco de Assis (1737), respectivamente, executados pelo pintor-dourador portuense Caetano da Costa Coelho. 

As pinturas constroem um diálogo harmônico e coordenado com as talhas que compõem os retábulos e que recobrem as paredes, realçando as influências que determinaram os trabalhos artísticos, uma vez que Manuel de Brito e Francisco Xavier de Brito, os dois grandes mestres entalhadores que trabalharam no revestimento interno da igreja, também eram portugueses, ambos de Lisboa. O que também corrobora para tamanha compatibilidade entre talha e pintura foi o curto período de execução, pois todo o conjunto foi elaborado em um espaço de quase vinte anos: talha entre 1726 e 1740, e pinturas entre 1733 e 1743, incluindo o trabalho de douramento executado pelo próprio Caetano da Costa Coelho. 

É precisamente o sentido de unidade, a sensação de maravilhamento e o envolvimento entre o observador e todo o espaço policromado e volumétrico que fazem desta igreja um exemplar único e de excepcional importância para o cenário da história da arte sacra colonial Luso-Brasileira, funcionando como um grande livro aberto ao diálogo entre o fiel e o divino. Ao adentrar à igreja, o observador é envolvido por uma atmosfera dourada, onde o olhar percorre os altares laterais, púlpitos e tribunas, avançando a linha do arco-cruzeiro e finalmente chegando ao espaço de maior comoção que é o da capela-mor. 

 

O conjunto escultórico do retábulo-mor encena, por meio do gestual, da teatralidade e da apreensão do instante, um dos momentos mais importantes da vida de São Francisco de Assis, e o jogo de olhares e sentimentos despertados pela interação entre os personagens elevados pelo trono escalonado e banhados pela luz que emana do óculo reforça a narrativa e convida à oração. 

Juntamente com a capela primitiva; o conjunto da imaginária processional do período das cinzas localizado na sala ao lado; as pinturas de forro e o grandioso arcaz da sacristia; as imagens de roca; a ambientação rococó da capela do Santíssimo e o interior neoclássico da capela das exéquias, a capela dourada da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência do Rio de Janeiro representa um testemunho precioso, vivo, atual e acessível a todos que prezam pela arte, pela preservação do patrimônio e pela espiritualidade franciscana.

Rua da Carioca, 5 - Centro - Rio de Janeiro

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